5 Destaques da franquia The Legend of Heroes
Uma análise dos principais aspectos que tornam The Legend of Heroes uma franquia de RPG tão especial

The Legend of Heroes, também conhecida como franquia Trails, é uma série de jogos de RPG desenvolvida pela Nihon Falcom. A série foi iniciada em 2004 e até hoje ainda não foi finalizada completamente, o que resulta em 22 anos de desenvolvimento até o momento, com um total de 13 jogos.
Muitos podem pensar que a franquia é exatamente como outros RPGs japoneses, dos mais famosos aos mais comuns. Porém, essa franquia possui detalhes que a fazem se destacar em relação a outros jogos do mesmo gênero, e é sobre isso que este artigo vai abordar. Confira 5 detalhes que, ao jogar toda a franquia, consegui identificar como pontos bastante positivos.
Otimo desenvolvimento de personagens
Diferente de alguns outros jogos do gênero, a apresentação dos personagens é bem demorada, e a cada saga da franquia não se poupam esforços para aprofundar suas personalidades, principalmente as dos personagens principais. Isso é algo que pode ser maçante no início para algumas pessoas, mas que é extremamente recompensador posteriormente na história. Posso citar um exemplo de um personagem da saga Trails of Cold Steel que era extremamente chato (eu odiava aquela personalidade e suas atitudes) e que, posteriormente, na mesma saga, me fez rir e chorar. A forma como cada personagem é desenvolvido é bem profunda e faz você entender quem eles realmente são.
E é interessante ver como isso impacta alguns jogos da franquia, principalmente Trails of Cold Steel IV e Trails into Reverie, que permitem ao jogador escolher entre mais de 40 personagens disponíveis. É claro que existem RPGs japoneses que permitem ao jogador jogar com mais de 100 personagens, porém acho difícil encontrar algum que faça o mesmo que The Legend of Heroes: fazer você se importar com cada um dos mais de 40 personagens jogáveis no mesmo jogo.
Até agora, mencionei os personagens principais e os mais recorrentes, mas também existem os personagens secundários e terciários, que são desenvolvidos ao longo dos jogos. O jogador pode realizar uma missão secundária e conhecer determinado personagem, mas ele nem sempre ficará no limbo do esquecimento. Esse personagem pode aparecer em missões secundárias de outros jogos da franquia ou até mesmo como um NPC aleatório na cidade, contando como está sua vida, mas sempre mantendo uma ligação com aquilo que já aconteceu com ele nos jogos anteriores.
É difícil explicar como isso realmente funciona, mas tenho um exemplo que pode ajudar a entender melhor. Um personagem completamente aleatório, que não agrega em nada à história principal, estava sofrendo com a situação do país que estava visitando a trabalho. Ele sentia falta da família em seu país de origem. Na saga seguinte da franquia, é possível encontrá-lo de volta ao seu país, reunido com a família e contando o que aconteceu nesse meio-tempo. Esse exemplo não é algo incomum na franquia, e parece até meio estranho que isso aconteça, já que o esperado seria que os RPGs ocidentais se importassem mais com esse tipo de detalhe.
E, para finalizar esse ponto, apesar de os jogos serem separados em sagas/arcos, o mundo é o mesmo, e os personagens das sagas anteriores aparecem nos jogos seguintes. Isso influencia muito no desenvolvimento dos personagens e nas mudanças que acontecem com o passar dos jogos. Por exemplo, um personagem estava aprendendo determinado estilo de luta ou abrindo uma empresa e, após vários jogos, tornou-se especialista naquele estilo de combate ou conseguiu colocar a empresa em pleno funcionamento. São coisas simples, mas que agregam muito a uma franquia tão extensa e com tantos personagens.
Mundo vivo e que sofre mudanças
Ligando um pouco com o tópico anterior, tudo o que acontece no mundo tem impacto na história principal e nos personagens. Como já descrevi, algo que aconteceu em certo país e envolveu determinados personagens é retomado e reforçado em outros jogos da franquia. Os personagens e cada detalhe econômico, geográfico ou tecnológico não são esquecidos nem entram em contradição com o que já aconteceu na história. Isso gera uma passagem do tempo extremamente clara e até deixa o jogador curioso para ler os livros de história disponíveis no jogo, pois eles adicionam uma nova camada de informação que permite entender por que o continente de Zemuria está daquela forma.
Além disso, os personagens reagem ao que está acontecendo no mundo e têm suas próprias "visões de mundo". Inclusive, se você interagir com um NPC aleatório, ele irá comentar sobre algo que está fazendo ou sobre algum acontecimento impactante da história.
Os personagens são um ponto relevante, mas o que mais percebi mudar ao longo do tempo foi a geografia e a tecnologia. Quando se joga os primeiros jogos da série, as ferramentas tecnológicas disponíveis e a geografia de cada país são bem diferentes daquelas encontradas nos jogos posteriores. Em algum momento, o jogador irá experimentar tecnologias mais avançadas e ver regiões que antes pertenciam a um país passarem a pertencer a outro. Isso acaba sendo bem relevante por conta da quantidade de jogos disponíveis, evitando que a experiência fique enjoativa ou monótona.
Plot twists absurdos
Apesar de a Falcom ser bem lenta para introduzir novos personagens e países em The Legend of Heroes, os finais de seus jogos estão entre os melhores já desenvolvidos (se é que já não são os melhores). Alguns jogos da franquia conseguem concluir o arco ou aquela pequena parte da história que foi apresentada, mas também fazem o completo oposto. Em alguns jogos, eles ampliam bastante o escopo da história no final e deixam várias dúvidas em aberto sobre o que realmente estava acontecendo, o que gera um gosto meio amargo e ansiedade para jogar a sequência. Por experiência própria, houve jogos em que mal consegui pensar em outra coisa e já tive que iniciar o próximo, porque o final foi absurdamente impactante.
É interessante como o jogo trabalha toda a história para que o final seja muito impactante. Por isso, acredito que todo o desenvolvimento inicial e a abordagem dos problemas no decorrer da história interferem muito na qualidade do final e até elevam a qualidade dos jogos seguintes.
Detalhes nos detalhes
Essa parte é bem complicada de explicar sem dar spoilers, mas o jogo tem muitos detalhes escondidos que só são compreendidos com o passar dos jogos. Os livros de história, objetos, locais e criaturas podem ser considerados elementos que só serão compreendidos nos últimos jogos da franquia, mas que passam completamente despercebidos por conta da falta de contexto e de compreensão da realidade daquele mundo.
E é muito interessante como esses detalhes, mesmo não sendo compreendidos inicialmente, não geram frustração. Pelo contrário, eles me deixaram positivamente indignado ao perceber que estava tudo escancarado na minha frente e eu não enxergava. É uma sensação muito satisfatória e difícil de descrever. Infelizmente (ou felizmente), só jogando para entender.
Mas um outro detalhe que posso descrever sem dar spoilers é que a história acompanha a trajetória de exércitos, as rotas de comércio e os caminhos percorridos pelos personagens. Essa descrição não é aleatória. O jogador pode abrir o mapa e ver exatamente por onde determinado personagem passou ou onde uma guerra começou. Isso adiciona uma camada muito profunda de contexto, porque dá a sensação de que você realmente está presenciando aqueles acontecimentos. E o mais interessante é que a história nunca contradiz o que é mostrado no mapa, nem o contrário.
Combate com personalidade e dinâmica
O combate é uma beleza à parte que foi sendo refinado a cada jogo. Ele tem "semelhanças" com outros jogos, porém possui sua própria identidade. O sistema de combate consegue mesclar ação e turnos de forma que não perca o fator estratégia e continue sendo único, sem se tornar uma cópia de algum outro jogo, como Final Fantasy ou Dragon Quest.
O combate da franquia tem várias camadas que permitem ao jogador variar suas estratégias, porém um ponto que chama a atenção é que ele é adaptado para cada saga da franquia e evolui a cada jogo. Isso se torna necessário por conta do contexto regional e tecnológico da história, porque seria extremamente contraditório implementar mecânicas do sétimo jogo nos remakes do primeiro. E isso não torna os primeiros jogos menos interessantes; pelo contrário, deixa ainda mais interessante perceber essas diferenças e essa evolução ao longo da franquia.
Conclusão
Com certeza existem outros pontos de destaque nessa franquia, mas esses foram os mais relevantes e os que me fizeram gostar tanto dela, a ponto de passar mais ou menos 8 meses apenas jogando seus jogos. Devo dizer que foi uma experiência muito recompensadora e que gerou muitas discussões sobre os acontecimentos e os plots dos jogos. É uma ótima franquia para quem quer se dedicar a uma história por várias horas.


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